Requiem e Judas, Crítica de Pedro Boléo no Ípsilon 30.1.

Requiem Judas
Autoria: António Pinho Vargas
Edição Naxos
Não é tarde para saudar a edição (no final de 2014) de um disco que reune duas obras muito importantes de António Pinho Vargas:Judas, oratória estreada em 2004, que parte de excertos dos quatro Evangelhos para rever a figura deste "traidor" de Cristo; e o seuRequiem de 2012. Ambas as obras foram tocadas na Gulbenkian, dirigidas, respectivamente, por Fernando Eldoro e Joana Carneiro, em apresentações que ficarão na memória. Agora, com a ajuda deste disco que fixa esses dois acontecimentos a partir dos concertos ao vivo, a memória pode avivar-se e lembrar estes dois momentos marcantes da produção mais recente do compositor.
Judas Iscariotes pode ser lido nos Evangelhos como um traidor "necessário", um traidor previsto e trágico, indispensável para dar sentido à vida de Cristo e ao seu exemplo de fidelidade, mas também à sua morte anunciada. A obra exigiu de Pinho Vargas não apenas um estudo aprofundado dos textos bíblicos, mas uma "tradução" (que é também uma traição, afinal) da figura de Judas para a sua linguagem musical, para a "sua" tragédia, obrigando-o a uma reflexão sobre a possibilidade de compor uma obra de fundo religioso, nova e absolutamente pessoal, mas profunda e conscientemente ligada à história da música anterior. A interpretação da Orquestra Gulbenkian é brilhante, desde o Dies festus inicial, e o Coro Gulbenkian - aqui com destaque para as vozes femininas que têm um papel central - foi muitíssimo bem orientado por Fernando Eldoro para a construção desta oratória dramática. Nas seis partes da obra e no "comentário" final, ressalta o carácter reflexivo da composição de António Pinho Vargas, autor de uma "música que pensa" não apenas os temas que se propõe tratar, mas a própria obra e o processo da sua criação.
O Requiem é talvez ainda melhor exemplo disso mesmo, pois constitui-se como uma obra que enfrenta a morte tanto quanto o desafio de escrita de "mais um"Requiem. Resposta humana à ideia de perda e de ausência, com o seu lado frágil, ora enfrentando os medos, ora procurando refúgios melancólicos. Mas ambas as obras - e talvez ainda mais intensamente Judas - são marcadas ao mesmo tempo por uma busca de comunicação com os outros - incluindo os potenciais ouvintes -, sem para isso ter de "ceder" o que quer que seja da sua linguagem própria e do seu questionamento atento do mundo e da existência. Duas obras em que expressão e construção, intensidade e tempo, se equilibram e desequilibram a par e passo, sem se formatarem por um método único de composição ou por um "estilo" a priori.
O que fica é uma gravação com muita qualidade de duas das mais ambiciosas e emocionantes peças do compositor, com as naturais limitações de um registo ao vivo, mas também com o que de bom isso tem, fixando momentos vivos e irrepetíveis de comunicação artística a partir de concertos excelentes.
Pedro Boléo, Ípsilon, 30.1.2015.javascript:nicTemp();
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